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sábado, 2 de outubro de 2010

Entrevista com Georgi Dimantchev

Olá, pessoal!

Em maio, pouco antes do Campeonato Mundial em Roma (que ocorreu em junho de 2010), o Miguel Tissières, da Argentina, entrevistou o Georgi Dimantchev, um conhecido designer búlgaro de bumerangues, famoso por diversos de seus desenhos, principalmente de MTAs. Achei bem interessante, principalmente pela visão dele de como o esporte evoluiu desde que ele começou e pelas dicas de como ser um atleta melhor. Com a permissão do Miguel, eu traduzi a entrevista. Confiram abaixo:




Olá, Georgi!
Olá, meu amigo!

Como vai?
Estou bem, obrigado. Melhor ainda... estive arremessando bastante durante os últimos meses, me preparando para o campeonato mundial em Roma, por isso estou muito rápido.

Há quanto tempo você arremessa bumerangues?
Joguei meu primeiro bumerangue feito por mim em abril de 1970, quando tinha 13 anos de idade. Me apaixonei desde a primeira volta no céu.

E há quanto tempo você começou a desenhar bumerangues?
Comecei a fazer diferentes modelos de bumerangue e experiências em 1977, durante meus 2 anos de serviço militar. Todos eram relativamente grandes e pesados por causa do material grosso que tinha que usar (bétula e compensado de faia de 8 - 10 mm). Fiz muitos tradicionais de 2 asas, mas também modelos de 3, 4 e 5 asas.

Você é engenheiro aeronáutico, certo?
Sim, correto. Estudei cinco anos e meio no Instituto de Aviação Civil, em Riga (capital da Letônia, no Mar Báltico, 1978-1984). Era uma sonho pra mim desde a infância (sim!). Por isso sou um homem muito feliz.

Georgi e Emil Dimantchev

O que veio primeiro em sua vida: os bumerangues ou os aviões? Como um influenciou o outro?
O primeiro passo em direção a "objetos voadores" foi uma figura de uma avião que fiz quando tinha 5 anos de idade. Muitos anos de minha infância e juventude foram "ocupados" fazendo modelos de avião (aeromodelismo). Usei papel no começo, mais tarde madeira e em seguida os materiais compostos.Quando tinha 13 anos de idade, encontrei uma figura de um bumerangue clássico e as instruções de como construí-lo em um periódico para aeromodelistas. Isso acendeu o fogo do bumerangue em mim. Durante muitos anos construí aeromodelos e bumerangues paralelamente. A experiência tecnológica na elaboração e construção de aeromodelos me ajudou muito com o desenho de bumerangues

O passo seguinte realmente importante em meu caminho para os céus foi voar com um planador. O meu ápice como piloto de planador foi ganhar o prêmio de prata FAI "C". Não estou mais voando de planador, mas vou muito ao aeródromo para testar meus bumerangues. Não tenho muito espaço e o vento é mais "livre", não é complicado como em um parque de uma cidade típíca.

Qual foi seu maior desenho como engenheiro? Um ultraleve?
Meu primeiro projeto de engenharia importante foi um ultraleve esportivo de dois assentos chamado Optimum 88 (primeiro voo em setembro de 1989). Uns dois anos antes disso, eu estava ocupado com os projetos e testes de asas delta e parapentes, e, durante muitos anos depois do projeto Optimum, com desenhos de pára-quedas de frenagem.

O Optimum parece muito bom. Ainda voa?
Obrigado pelo elogio! O modelo Optimum de 88 teve uma vida curta (cerca de um ano de voos experimentais). Mas este projeto influenciou outros projetos de aviação ultraleve na Bulgária.

Você é famoso por seus desenhos, especialmente de MTA. É sua especialidade?
Me sinto feliz e orgulhoso, não só com meus desenhos Impulse, Gradus, Primer, Eventus, Tensor, Trigger e Revolver. Nos últimos 20 anos tenho desenvolvido, testado e melhorado muitos outros modelos para diferentes propósitos e modalidades competitivas. Há muitos modelos originais criados por mim: 

Bumerangues de três asas com buracos em forma de gota em uma ou duas asas (Artistic, Tonic, Vulcanic e Windbraker)

Bumerangues de duas asas em formato de sino e ômega , com cotovelo ou sem (Logic, Essence e Autograph)

Os "2 + 1" Fantasy, Next Step, Avantage, Extasy e Diabolino, incluindo meus MTAs Trigger e Revolver.

Por último, mas não menos importante, meus modelos recreativos, para diversão e principiantes (Debut, Pioneer, Amigo e Trixy) são fáceis de arremessar e muito seguros de se pegar, o que não é tão simples como parece.

Qual foi seu primeiro desenho de MTA?
Meu primeiro bumerangue de MTA (1992) foi uma cópia do MTA Midi, do Ted Bailey (não de bétula, mas de compensado de faia). A princípio a regulagem era um problema, mas os experimentos que realizei me fizeram muito mais experiente para o futuro. Meu primeiro sucesso "próprio" em desenhar foi o MTA Impulse (1994). Era uma adaptação do clássico formato conhecido como "taco de hockey", um modelo feito em fibra de vidro fina. Meu primeiro modelo de MTA em material composto foi o Vector (1995). Desde 1999, aos poucos, tenho desenvolvido vários modelos de MTA usando a tecnologia dos compostos e agora os estou fazendo em uma série limitada - Gradus (1999), Sensor (2000), Primer (2001), Trigger (2002), Eventus (2003) e Revolver (2005). Além disso, tenho escrito muitos artigos em alemão e inglês. Foram publicados em periódicos na Suíça, Alemanha, França, Itália e EUA. Nestes artigos explico meus princípios aerodinâmicos e meus conhecimentos tecnológicos. Meu próximo modelo é um novo MTA de material composto, Rebus, de três asas, simétrico, com formato original e perfis sofisticados.

Qual seu MTA favorito? Por quê?
Todos meus modelos de MTA são como meus filhos. Gosto de todos e cuido de usar cada modelo nas condições mais convenientes para cada um. Por exemplo, quando não tem muito vento começo com o Gradus. Devido a seu tamanho, peso e perfil é muito cômodo para arremessar e pegar e é relativamente seguro em matéria de estabilização (o momento entre a subida e as voltas, durante as fases do voo). Nos dias mais quentes, quando o vento é suave, arremesso o Primer e o Sensor. Em condições de vento forte, os MTAs de três asas Trigger e Revolver são minha escolha.

Georgi jogando Trick Catch

De que tipo de bumerangue você mais gosta? De três asas? Por quê?
Para todas as modalidade competitivas de 20 metros prefiro modelos de três asas de polipropileno, nylon ou plástico (todos modificações do TriFly). Para Team Relay e Australian Round (alcance de 30-50 metros), uso modelos de duas asas feitos de compensado naval de bétula ou de fenolite. Para a modalidade de MTA em ventos calmos a médios, eu uso modelos de duas asas, mas em condições de vento forte utilizo modelos de três asas.

Você pode me explicar como nasceu o conceito do formato "2 +1"?
Eu fiz o primeiro "2 + 1", chamado Fantasy, em 1993. Eu queria que fosse um bumerangue fácil "para arremessar e pegar" para crianças e principiantes. Minha idéia principal era usar a região do cotovelo aerodinamicamente. Durante um curto período de tempo fiz muitas cópias do Fantasy em diversos materiais mudando aos poucos a forma e o tamanho. Até o fim do anos 90 eu desenvolvi modelos do Fantasy relativamente rápidos com um voo perfeitamente circular de mais de 50 metros em ventos moderados. O "filho" mais novo dessa família, o Diabolino, é estável em condições diferentes de vento e com o peso de aproximadamente 60 gramas cruza a linha dos 60 metros. Isto é possível graças a uma solução complexa: todos os parâmetros básicos para os materiais, forma, tamanho, perfil, a ponderação e o ajuste geométrico são otimizados em conjunto, sendo tratados como um problema complexo.

Esta é outra de suas especialidades, certo?
Sim. O conceito filosófico "2 + 1" me levou ao MTAs de três asas Trigger e Revolver. Sem o perfil de conhecimentos do "2 + 1" não seria possível fazer MTAs de três asas.

Também sou famoso no mundo do bumerangue por meus turbulators (tiras de linha e zigue-zague) nas asas dos bumerangues.

Você tem tem trabalhado com materiais compostos. Se tivesse que escolher um material para fazer bumerangues, qual seria?
Depois de uns 30 anos de experimentos com diferentes bumerangues para diversão e para competição, hoje sabemos que material é melhor para nossos bumerangues:

Polipropileno e nylon (4-5 mm de espessura) são os melhores materiais para modelos de três asas usados em  modalidades de 20 metros.

Fenolite e celeron de 2,0 ou 2,5 mm de espessura são os materiais adequados para doblers.

Para bumerangues de 30 a 50 metros de distância ou mais recomendo compensado de bétula finlandesa com 4-6 mm de espessura (2 camadas para cada 1 mm de espessura) e fenolite ou celeron (2,8 a 3,5 mm).

Os melhores MTAs em "condições climáticas normais" são aqueles feitos de vários compostos fabricados com uma matriz de vidro, carbono ou Kevlar, em resina epóxi. Mas "não tão mal assim" é "o velho compensado de bétula" com 2,8-3,2 mm de espessura (5 ou 6 camadas). Para um MTA para ventos bons, uso fenolite (2,0-2,5 mm).

O melhor material para LD são as chapas de fibra de vidro (2,5-3,5 mm de espessura).

Para fazer bumerangues seguros, como tradicionais, em "V" e ômegas, para crianças e principiantes, é bom usar bétula ou pinho leve (5 camadas, com 5-6 mm de espessura), e para modelos de 3 asas o compensado de bétula de 3 mm com 6 camadas.


Você frequentemente participa de campeonatos europeus e mundiais. De que modalidade você mais gosta? Por quê?
Participei de 3 campeonatos mundiais (1992, 2002 e 2004) e de 5 campeonatos europeus (1995, 2003, 2005, 2007 e 2009), todos eles na Europa. Dentro de um mês e alguns dias vou competir no mundial em Roma. Aussie Round e MTA foram e são os mais interessantes para mim (você pode ver e sentir um voo de verdade!). Em equipe, gosto mais de Team Endurance e Team Relay, que não são tão difíceis e arriscados como o Team Supercatch, mas te fazem se sentir bastante bem trabalhando pela equipe em cada etapa e em cada pegada. No mundial de Roma vou arremessar pela 3ª vez como membro da Equipe de Veteranos. Aceito isso com uma grande honra.

Você viu algo que te surpreendeu no último Campeonato Europeu?
O último foi no verão passado, na Suíça. A organização suíça normalmente é perfeita, com campos fantásticos e únicos (no Lago Genebra), boa gente e bons amigos. Uma grande surpresa pra mim não foram bumerangues de competição, mas os Mini Boomerangs do Alessandro Benedetti, da Itália. Todos eles são simplesmente incríveis, são uma arte!

Qual a diferença do mundo do bumerangue de hoje comparando com os últimos 5 anos?
Tenho estado ativo no bumerangue esportivo nos últimos 20 anos. Há 15 ou 10 anos era mais interessante estar em competições. Em cada campeonato havia novos desenhos para se ver, garotos novos para conhecer. Sinto muito em dizer que, ultimamente, não estou vendo caras novas na família do bumerangue. Os novos atletas vêm cada vez melhores e os melhores atletas estão batendo novos recordes. Observar este panorama não é chato, com certeza!... No entanto, nossa família vem se convertendo aos poucos em adultos. Eu gostaria de ver os mais jovens em campo. Eu gostaria de dar a eles o máximo possível de meus conhecimentos.

Para você, quem tem sido o melhor atleta?
Todos sabemos os nomes dos campeões do mundo: Fridolin Frost (Alemanha) - 4 vezes (1992, 1998, 2006, 2008), Chet Snouffer (EUA) - 3 vezes (1985, 1989, 1994), Manuel Schuetz (Suíça) - 3 vezes consecutivas  (2000,0 2002, 2004), Rob Croll (Austrália) - 2 vezes (1988, 1996) e John Koehler (EUA) - uma vez (1991)*. Sabemos os nomes de muitos dos detentores de recordes também. Todos são grandes pessoas e super-atletas, sem nenhuma dúvida.

Considerando no geral, um atleta muito bom é qualquer pessoa que tenha formado uma sociedade com seu bumerangue, não um bom amigo, mas um sócio leal. O atleta e seus bumerangues são uma dupla inseparável. Uma vez que se consegue isso, o próximo objetivo deles é, encontrar o caminho certo para a comunicação com a natureza (o sol, o ar e o terreno). Mas, talvez, temos que usar outro critério para dizer que é "o melhor"...

Porque que não isso?: o melhor atleta é aquele que consegue levar sua noiva para o campo uma vez e ela continua o acompanhando no futuro, para arremessar ou simplesmente para ver... É uma pena que haja tão poucas mulheres em nosso esporte... É uma pena!

Tirando você mesmo, qual é o melhor designer para você? Por quê?
Todo artesão e designer usa a experiência de outras pessoas antes de ter a própria. O "verdadeiro negócio" é usar essa experiência de uma forma inteligente. Todo desenho de bumerangue pode ser melhorado. Qualquer um que tenha êxito ao adaptar seu desenho a seus objetivos práticos (de competição) e o mesmo êxito em sincronizar seu desenho a seu estilo pessoal de arremessar (potência, resistência, habilidade) é um bom designer. Eu não sei quem poderia ser declarado como "o melhor designer de bumerangues". Há um monte de designers de sucesso na história do bumerangue esportivo. Tenho um profundo respeito por todas essas pessoas que têm boas idéias e as põem a serviço do bumerangue em todo o mundo.

Qual o seu bumerangue favorito?
Claro que, depois de tantos anos de fazer e arremessar, tenho um monte de bumerangues favoritos. Mas... não se trata de bumerangues pra competição. Se trata de bumerangues "recreativos"... para diversão. São meu amigos em bons momentos de minha vida, por exemplo, o DejaVu, o Hazzard e o Autograph. Meus bumerangues para competição são meus sócios. Temos que fazer "negócios de bumerangue" juntos. São meus ótimos companheiros, por exemplo, o Trinket e o Windbraker para Fast Catch e Enduro, Rotor (3 asas) para Team Relay, Talisman e Diabolino para Aussie Round, Gradus e Trigger para MTA.

Georgi em ação

Nos conte sobre o Bulgarian Club Boomerang
O Bulgarian Club Boomerang foi criando em dezembro de 1991. Eu e outros três búlgaros da equipe chamada "Astra" participamos do 4° Campeonado Mundial de Hamburgo (Alemanha) em setembro de 1992. Nós, os atletas da Bulgária, fomos as primeiras pessoas do leste europeu (ex estados socialistas) unidos pelo mundo do bumerangue. Os atletas da Bulgária participaram do Campeonato Europeu em Kiel (Alemanha, 1995) e no Campeonato Aberto da Alemanha dois anos depois. Durante três anos consecutivos (1994-96), o clube organizou torneios no Parque Sul da cidade de Sofia.

O bumerangue é um esporte popular na Bulgária?
Já não é mais. Eu sinto muito por isso. Nos anos 90, na Bulgária, quando introduzimos o esporte do bumerangue e começamos o clube, foi um momento único. Agora lembramos desses tempos com profunda nostalgia. Mas há um motivo de felicidade e otimismo: há um "novo filho" na família do bumerangue mundial: o Virazon Boomerang Club, criado pelo búlgaro Todor "Tontcho" Enev na ilha de Majorca (Espanha) em 2006. Fui convidado para apoiar o novo clube no começo. Desde então participei dos 4 torneios Mallorca Round organizados por Tonthco. Ganhei os dois primeiros, mas hoje o Tontcho é melhor  ... Tontcho e eu estivemos juntos durante os dois últimos campeonatos europeus no norte de Gales (2007) e Suíça (2009). Ele virá a Roma no mês que vem para o Campeonato Mundial também.

Você acha que tem havido uma revolução no bumerangue, tecnicamente falando? Qual foi essa revolução, para você?
Houve muitos avanços revolucionários na tecnologia durante os últimos 30 anos de história do esporte: na segunda metado dos anos 80 foram os MTAs "taco de hockey" do Ted Bailey; os modelos de três asas dos EUA para Fast Catch, Enduro, e outras modalidades de 20 metros; o primeiro MTA feito de material composto por Jonas Rombland (Suecia, 1991); o bumerangue "?" em forma de gancho para LD do David Schummy (Australia, 1998); o primeiro MTA de três asas Palm, em 2001-02, por Manuel Schuetz (Suíça) e o Trigger (Bulgária).

Há muitos modelos de "ouro" e "prata" na história do bumerangue. Por exemplo: para LD, o Gemstar feito pelo Herb Smith, de compensado naval e fenolite (Inglaterra); os Pro-Fly e Tri-Fly de plástico, pelo Eric Darnell (EUA); os Hooks de Bob Burwell e Roger Perry, da Austrália; os Hooks, Vs e Ômegas de fenolite de Volker Behrens, Ikarus e Fuzzy de Axel Hecjner, Moebius e Ice Runner (três asas) de Fridolin Frost, na Alemanha; e muito mais. Para mais informações, por favor procurem em meu livro Boomerang Puzzle (1998, 222 páginas, em inglês) - Capítulo IV. Boomerangs Top.

Meu respeito a todas as pessoas que desenham, produzer em vendem bons bumerangues a baixo custo de plástico e de madeira e para todas as pessoas que editam e publicam periódicos, livos e sites sobre bumerangues. Esse trabalho não é menos importante que desenhar um bom modelo para competição (isso ajuda os outros) nessa "lenta" revolução, fazendo com que o bumerangue seja mais e mais popular.

Como você vê o futuro do bumerangue esportivo?
Arremessar e pegar bumerangues por diversão é um bom exercício para todos. Mas para o verdadeiro esporte é necessário muito mais que só curiosidade. Arremessar e pegar bumerangues de competição é algo muito duro. Exige tanto de sua mente quanto de seu corpo. Para começar, é necessário ter paixão, mas logo depois deve-se juntar paciência. A experiência e os bons resultados vêm com o tempo. Só o fanático por bumerangues que agir dessa maneria tem um futuro seguro no esporte. Gente nova trará novos desenhos e novos recordes. O bumerangue nunca será tão popular quanto um esporte olímpico. Mas isso não é tão ruim, esta é nossa vantagem. Continuaremos em uma estreita comunidade de "loucos", trocando idéias e "pedaços de madeira" e nos reunindo entre nós mesmos, cada vez mais como amigos. E é isso que é agradável.

Você lembra de alguma anedota ou piadas do mundo do bumerangue para dividir? 
Piadas sobre bumerangues ?!?! Você está brincado?

"A diversão com bumerangue é um negócio sério!" (H. L. Mayhew, EUA, 1982).

Me lembro de dois conselhos que me soam como piadas:

"Não atire um bumerangue inútil ao ar, mas sim ao fogo!" (Folclore australiano),

"Faça bons bumerangues e guarde-os para você, o resto dê a seus amigos" (New Frontiers newletter, Austrália).

Você é um líder mundial em desenhos para competição... Qual seria seu conselho para os principiantes?

Como primeiro passo, gostaria de recomendar: pegue vários bumerangues de plástico de baixo custo (de 2 ou 3 asas fabricados no Brasil, EUA ou Europa) e os adapte a seu estilo de arremessar.

Segundo passo: fazer bumerangues diferentes de diversos materiais e os ajustar para você mesmo.

Terceiro passo: use seus bumerangues feitos por você mesmo para competir, ajuste-os em campo, que é a "sua casa".

Quarto passo: vá aos campeonatos para arremessar, correr, saltar e pegar "como os campeões"

Quinto passo: faça cópias de bons modelos que viu em ação durante os torneios, adaptando-os a você mesmo.

Sexto passo: tenha um conjunto particular de bumerangues para todas as modalidades competitivas; para arremessar em vento calmo e suave, mas também para vento forte.

Conselho geral: mantenha seu interesse pelos bumerangues, seu interesse em fabricar e arremessar bumerangues e seu interesse por participar de competições pelo maior tempo possível.

Detalhes importantes:

Vá arremessar em dias ensolarados e tranquilos, mas se quiser ser um bom competidor vá arremessar em dias de vento e de chuva também.

Vá arremessar sozinho, para revisar seus bumerangues se concentrando ao máximo, mas vá arremessar com seus amigos também, para compartilharem suas experiências e comparar seus bumerangues e suas habilidades.

O mais importante: manter a idéia do bumerangue em sua alma e trabalhar pacientemente, os momentos realmente interessantes virão com o tempo.

Algo mais que queira acrescentar?
Me dá muito prazer e fico muito feliz de ver que muita gente na América do Sul está se juntando ao esporte nos últimos anos. Meu respeito a todas essas pessoas na Argentina e no Brasil que arremessam e fazem do bumerangue mais popular em todo o mundo.

Muito obrigado, Georgi!
Obrigado a você, meu amigo... Obrigado pela oportunidade de compartilhar minha opinião e algumas idéias.

*Em 2010, o campeão mundial foi Alex Opri (Alemanha)



Muito obrigado ao Miguel pela permissão e pela ajuda com algumas dificuldades que tive para entender o espanhol. Quem quiser pode ler a entrevista no original no site dele, o Voodoo Boomerangs.


Bons ventos a todos!
Ítalo Carvalho

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Esclarecimento ao público

Aos leitores do blog "Bumerangue Salvador":

Recentemente publiquei um texto falando sobre as diferenças entre o Trifly fabricado pelo Eric Darnell, no Estados Unidos, e o Trifly fabricado no Brasil pela Bahadara. Esse texto gerou comentários que revelaram interpretações incorretas sobre minhas intenções ao publicá-lo. Venho agora a público esclarecer alguns pontos.

Inicialmente, gostaria de deixar escrito exatamente qual foi meu objetivo: informar aos praticantes brasileiros do bumerangue  que dispomos de um produto produzido no Brasil cujas características de peso e medidas se assemelham enormemente ao produzido nos Estados Unidos e cuja qualidade não se mostra de nenhuma maneira inferior à deste. Assim sendo, o Trifly produzido pela Bahadara estaria tão apto a ser modificado e utilizado em competições quanto o produzido pelo Eric Darnell. 

O que me motivou a isso foi saber da dificuldade que muitos atletas possuem para importar bumerangues, uma vez que as taxas de câmbio das moedas estrangeiras mais utilizadas (Dólar americano e Euro) aliadas aos impostos de importação cobrados em nosso país (que para muitos produtos chega a 60%) colocam os preços em um patamar que muitos não podem pagar. Ao serem informados erroneamente de que o Trifly produzido não seria próprio para ser utilizado em competições, esses atletas seriam, então, privados dessa experiência e da oportunidade de conseguirem bons resultados em competições utilizando bumerangues modificados por eles próprios.

O que de maneira nenhuma eu fiz foi acusar alguém de divulgar informações falsas motivado por más intenções (pois, mesmo que o tivesse feito, seriam acusações que eu não poderia provar). Meu texto deve ser interpretado com base única e exclusivamente nas palavras que nele estão escritas. Deixei claro quando iniciei este blog que meu objetivo era trazer conhecimento a quem se interessa por bumerangues e é exatamente isso que venho fazendo. Me reservo o direito de corrigir erros encontrados nas informações disponibilizadas em qualquer meio, se para isso me sentir capacitado, usando como base fatos concretos, como já mostrei ser possível fazer. Em nenhum momento irei usar o blog como meio para ofender ou atacar alguém.

Gostaria também de deixar claro a todos minha opinião sobre algo que fui questionado. Sou a favor do desenvolvimento dos produtos e dos atletas nacionais, mas de maneira nenhuma isso implica em xenofobia. Sou a favor de uma convivência amigável e saudável com os atletas estrangeiros, com quem podemos trocar informações que ajudem no aprimoramento técnico de todos e no desenvolvimento do esporte. Reconheço as contribuições que muitos deram ao mundo do bumerangue, mas creio que devemos atribuir às pessoas o crédito que elas merecem, nem mais, nem menos, sejam elas estrangeiras ou brasileiras. Minha posição é de que devemos estabelecer uma relação de diálogo na qual também possamos oferecer algo e não apenas esperar pelo que vem de fora e depreciar o que temos aqui, pois isso seria uma mentalidade colonialista que , infelizmente, é muito presente na cultura brasileira e há muito já deveria ter sido superada. Creio que já provamos, mais de uma vez e por meio de várias pessoas, do que somos capazes.

Também não sou contra comprar bumerangues de outros países (e muito menos os Triflys do Darnell). Creio que todos têm direito (ou até o dever) de formar opinião própria, e que esta deve ser respeitada mesmo por quem não compartilhe dela. Sendo assim, cada um pode escolher aquilo que mais lhe agrada. Não quero criar polêmica sobre qual bumerangue é melhor, pois cada um tem seus pontos fortes. Porém, creio que todos têm o direito de formar sua opinião com base em informações legítimas.

Por fim, gostaria de reiterar que em nenhum momento usarei deste espaço para fazer política, nem para comentar atitudes alheias de qualquer tipo, pois para isso há outros meios mais adequados. Uso do meu direito de ter opinião própria, mas não e por isso que tratarei a quem for com desrespeito ou falta de cordialidade. Convido a todos para que utilizem o recurso de comentários no blog, mas peço que sejam sempre cordiais e respeitosos e que tenham a  conduta pertinente a este espaço.

Sem mais no momento, subscrevo-me,
Ítalo Carvalho
Criador e editor do blog "Bumerangue Salvador".

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Trifly nacional e importado: qual a diferença?

Olá, pessoal!

Há muito tempo vem se falando sobre as diferenças entre o Trifly nacional e o importado. Alguns dizem que o nacional seria maior e mais pesado e que isso atrapalharia seu desempenho, não dando pra modificá-lo para competições. Na verdade essas informações são um engano, vejam abaixo.

Foram comparados um exemplar em PP original do Darnell (vermelho, sem desenhos) e dois exemplares em PP da Bahadara (verde e branco com desenhos, iguais entre si, exceto pela cor). 

Trifly em PP importado. Notem que, ao contrário do nacional,
não há o nome da Bahadara gravado ao redor do círculo central

Primeiro foi medida a espessura de cada um. O Trifly nacional (esquerda) se mostrou 0,16 mm mais fino que o importado (cliquem nas fotos para ampliar):


Quanto ao peso, o nacional é 2 g mais leve:


Por fim, um Trifly nacional foi colocado sobre o importado. É possível perceber que a asa do nacional é alguns milímetros mais curta:


Concluindo: o bumerangue nacional é um pouquinho menor e mais leve que o importado. Porém, essa diferença não chega a ser significativa, sendo que ambos podem ser modificados das mesmas maneiras e resultam no mesmo desempenho. E quanto à resistência do material, o nacional não deixa nada a dever: o teste de qualidade é feito arremessando o bumerangue algumas vezes contra uma parede.

Mas porque essa diferença no tamanho? O Trifly é feito através de um molde onde o plástico é injetado. O molde do nacional foi feito usando um Trifly importado como base, logo o molde tem o tamanho exato desse bumerangue. Ao ser injetado no molde, o PP derretido preenche todo o espaço, mas ao resfriar ele se contrai ("encolhe") um pouco, resultando em um Trifly alguns milímetros menor. É válido ressaltar que o ABS e o nylon não sofrem essa contração, logo os bumerangues desses materiais ficam um pouco maiores que os de PP (tanto os nacionais, quanto os importados).

Uma dica: ao pegar plantas para modificações do Trifly (feitas geralmente com base no importado), não tentem encaixá-las no bumerangue nacional com referência no furo, pois ele estará deslocado por causa da diferença de tamanho. Para isso, utilizem as bordas.

E uma última observação: ninguém é obrigado a acreditar no que está escrito aqui. Quem duvidar pode repetir as mesmas medições e conferir por si mesmo.

Atualização em 24 de julho de 2011:

Vejam o vídeo com o próprio criador do TriFly, o norte-americano Eric Darnell, falando do bumerangue fabricado no Brasil:



Bons retornos a todos.
Ítalo Carvalho.

P.S.: Devido às repercussões deste post, publiquei um nota de esclarecimento ao público.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Visita à Bahadara

Olá, pessoas!

Nos dias 22 e 23 de agosto eu andei fazendo turismo de bumerangue! Aproveitei uma viagem a Maresias pra ter um contato maior com outros atletas e aqui estão minhas experiências!

Comecei encontrando com o Alexandre Ortega, de Boiçucanga. Lá ele me levou pra arremessar na praia (com bastante espaço e um brisa constante, um dos melhores lugares onde já arremessei) e me recebeu para um almoço em sua casa (o melhor frango assado do Brasil!) com sua família. Lá eu também descobri sobre bumerangues de acrílico, o que achei que não era possível (pensei que o material era muito frágil), mas parece me enganei. Uma pena que não pude conhecer o Rodrigo Bistricky, que os fabrica. Todos foram muito simpáticos, muito obrigado e desejo tudo de bom para vocês!

Alexandre (à esquerda) e eu

Saindo de Boiçucanga eu fui para São Paulo, onde o Magrão me recebeu.

Magrão e eu

Conheci a sede da Bahadara (ainda em construção) e vi a estrutura de silkagem (impressão dos desenhos) e embalagem dos bumerangues. Nunca tinha visto tanto bumerangue junto! Confiram:

Os bumerangues chegam da fábrica...

... e são silkados e embalados

Atrás de mim, os modelos tradicionais

Também tive um vislumbre da coleção de bumerangues do Magrão e de todo seu acervo de fotos, matérias e revistas:





Como eu só pude passar um dia lá, não deu pra explorar mais a fundo todo o material, mas vi algumas coisas interessantes, como o famoso bumerangue que o Magrão quebrou em seu primeiro contato com o objeto e um exemplar australiano com mais de 200 anos!

Primeiro bumerangue arremessado pelo Magrão, fabricado 
pelo Dr. Pagliuchi, o precursor do bumerangue no Brasil.

Modelo tradicional, original da Austrália, com 200 anos de idade

Conheci também a mãe do Magrão e a dona Vera, que trabalha com ele na Bahadara há anos, as duas muito simpáticas. 

E ainda ganhei de presente vários bumerangues, sendo que a maioria eu irei distribuir, aqui em Salvador, aos interessados em aprender a arremessar. Assim, espero popularizar ainda mais o nosso esporte!

Bumerangues que logo estarão voando nos céus de Salvador

Os tradicionais deram essa bela foto
(virou o papel de parede do meu computador!)

Porém, o mais importante não são os bumerangues, e sim o contato que mantivemos. O Magrão me contou várias coisas sobre o mundo do bumerangue e passou várias informações legais. Quem tiver a oportunidade de conhecer esse cara, com certeza vale a pena (se vocês quiserem saber um pouco sobre a história do bumerangue no Brasil e sobre o Magrão, leiam a matéria Do Boomerang ao Bumerangue!, da Ana Maria Lisbôa Mortari, no site VIVASP.com).

Valeu, tio! Vamos manter o contato pela internet e quando for possível nos encontramos de novo. Um forte abraço e todo o sucesso do mundo pra você!

Bons retornos a todos.
Ítalo Carvalho.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Modificando o Trifly

Olá, pessoal!

A história do bumerangue moderno teve vários momentos de pequenas revoluções e um deles foi a criação do modelo Trifly, pelo norte-americano Eric Darnell. O trunfo do Trifly é que, além de ser ambidestro, ele serve de plataforma para criar vários outros modelos, bastando alterando o outline e o shape. A depender do material, podem ser feitos modelos só para diversão ou para competição (Fast Catch, Trick Catch, Precisão e Enduro). A única limitação do Trifly é que ele não serve como base para modelos de MTA, Longa Distância e Australian Round.

Existem várias plantas de possíveis modificações por aí, mas poucas trazem maiores informações. Abaixo seguem oito delas com alguns detalhes. As modificações de 1 a 6 não exigem shape, basta cortar as três asas para que fiquem iguais às áreas em cinza da figura. Um detalhe: os modelos para Fast Catch e Enduro não serão dos mais rápidos (em comparação com os modelos mais recentes, já que esses foram criados há muitos anos), então não são bons para usar em campeonatos. Mas eles podem ser muito úteis para quem está começando a praticar essas modalidades par se acostumar com os tipos de arremesso e voo.


  1. Tem um voo circular que desacelera no final, mas ainda com bastante giro, terminando com um planeio a um pequena altura. Bom para treinar Fast Catch.
  2. Chamado de Enduro, esse modelo é bastante estável e com uma trajetória bem previsível, desacelerando continuamente. Pelo nome, já dá pra perceber que é um modelo para treino de Enduro.
  3. O modelo mais rápido dentre os descritos aqui, e também mais violento. Pode ser usado na segunda rodada de Fast Catch para conseguir menor tempo.
  4. Tem uma queda rápida no final, servido para a prova de Precisão.
  5. Muito estável e com bastante perda de giro no fim no voo, servindo para a prova de Fast Catch em ventos fortes.
  6. Inicialmente foi projetado para ser usado como inside na modalidade Doubler da prova de Trick Catch (o outside seria um Trifly sem modificações). Porém, foi utilizado por Gregory Bisiaux para determinar o então recorde mundial de Fast Catch (15.03 s). Não se sabe que modificações foram feitas no shape, mas o material era PP.
  7. Semelhante ao Enduro, mas com a asa mais estreita. Deve-se fazer uma borda de fuga, para deixá-lo mais rápido. Feito em em ABS, para a modalidade de Fast Catch.
  8. Chamado de Soft Toss, é um modelo bem fácil de ser lançado, devendo ser feita uma borda de fuga. Bom para Pegadas Consecutivas.

    Para marcar onde cortar no Trifly, vocês podem ampliar e imprimir a imagem (para o Trifly nacional a imagem deve ser ampliada para 162%):


    Depois recortar a planta desejada (neste caso, eu utilizei a nº 1), posicionar sobre a asa do Trifly e marcar as linhas de corte:

     

    Notem que o Trifly que usei já vem pintado (foto da esquerda), então, para as linhas ficarem mais visíveis, preferi marcá-las na parte de baixo do bumerangue. Para isso, eu inverti a planta (foto da direita). Vejam abaixo como ficou a asa marcada:


    E, por fim, o bumerangue pronto:


    É importante mencionar que, além do formato, o material do bumerangue também influencia. O de PP podem ser usados para Trick Catch e Precisão. Já para Fast Catch as melhores opções são o ABS (ventos fracos) e nylon (ventos mais fortes). Aqui no Brasil só temos os de PP e de ABS, vendidos pela Bahadara. Quem quiser de nylon, só mesmo importando (Flight Toys). E, para quem já ouviu falar sobre isso, leiam sobre as diferenças entre o Trifly nacional e o importado.

    Nos vídeos abaixo, o Ricardo Marx mostra como fazer um modelo para Fast Catch (não é um dos descritos acima) a partir de um Trifly de nylon e dá algumas outras dicas:


    Parte 1

    Parte 2


    Há outras plantas no site BUME.com.br, e, para quem gostar mesmo de modificar bumerangues, os modelos Renner (importado) e Infinity (Bahadara) oferecem outras possibilidades (inclusive para Australian Round). As plantas que estão aqui são apenas algo por onde começar, vocês podem ir muito além disso.

    Ah, e também é bom dizer que quando se altera o Trifly, o novo modelo não será ambidestro. Então, se você for canhoto, lembre-se de inverter as plantas (já que a maioria delas é para destro), inclusive as que mostrei aqui.


    Bons retornos a todos.
    Ítalo Carvalho

    Referências utilizadas:
    As plantas e as descrições foram traduzidas e adaptadas do site do Kutek